Esse blog é meu xodó. Sempre foi. Não sei se alguém lia, ou ainda lê, ou se esse informe vai fazer alguma diferença.
Mas tudo bem, e tudo vai. A interface do Blogspot é confusa e não muito prática, então resolvi me relocar.
Só queria dizer que não o utilizarei mais. O meu carrossel agora será outro.
Esse aqui
http://red-hurricane.tumblr.com/
Obrigada por todos os textos.
Essa URL sempre será lembrada e amada.
domingo, 4 de agosto de 2013
domingo, 10 de fevereiro de 2013
I heard someone saying love is bitter
Metade do tempo não consigo respirar. O ar me vem como pedras, pedras que não encontram o caminho para meus pulmões. O ar me vem como pedras, que me torturam com a certeza insuportável de que ainda estou aqui, e de tudo continua a fugir do meu controle.
Melhor se viesse como facas, como lâminas afiadas.
Melhor se me cortasse por dentro.
Preciso de alguém que não vá fugir, porque eu não consigo fugir de mim.
Melhor se viesse como facas, como lâminas afiadas.
Melhor se me cortasse por dentro.
Preciso de alguém que não vá fugir, porque eu não consigo fugir de mim.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Modernismo
Era bonita, e chorava. Não sei quais são as regras com relação a isso. Acredito que chorar quando se possui um certo nível de beleza é mal visto. Ainda assim, era bonita e chorava. Tapava o rosto, enquanto o rapaz igualmente bonito gesticulava e falava coisas para ela, a menina bonita que chorava.
Vestia uma saia azul, de cintura alta. Azul céu. Não era rodada exatamente. Possuía um tecido leve, que balançava com o vento. E vestia uma blusa preta. Mas eu gosto de pensar que estava de preto, como que em luto. Com um pano rendado cobrindo seu rosto bonito, vermelho e molhado. Assim seu choro se tornaria mais aceitável.
O sinal abriu. Uma enxurrada de pessoas veio. Não sabia se do Setor de Autarquias Sul, ou do Setor Bancário Sul. O triste era saber que não tinham vindo da Biblioteca Nacional. Que não tinham pisado os pés cansados no Museu da República.
Passavam enquanto observavam a menina bonita chorar. O rapaz permanecia gesticulando, tentando acalmá-la. Tocou-lhe os ombros, a tirou da multidão.
A menina bonita limpou as lágrimas dos olhos vermelhos, no rosto vermelho. Chorou no meio da rodoviária de Brasília. Se fosse em São Paulo, ninguém repararia.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
Não é límpido ou transparente
Não era uma viagem muito longa. Uma semana. Duas, no máximo. Mas tive a constante impressão de estar levando pouca coisa. Pouca roupa, poucos livros.
Eu não estava acostumada com aeroportos. Era acostumada com carros, viagens de três dias. Canaviais e aquele cheiro terrível.
Não me sentia confortável em um avião. Estão no ar, não era pra mim. Não sou pássaro, não sou nuvem.
Esperava sentada. Um rapaz olhava pra mim. Dezessete, talvez. Tinha em mãos uma revista. História em quadrinhos, acho. Com olhos animados e pernas inquietas, ouvia algo que provavelmente não me apeteceria. Tinha um headphone. Enorme, tão grande quanto sua cabeça morena. A música deveria estar alta, pois a senhora ao seu lado parecia incomodada.
Algumas crianças corriam pela área de espera. Provavelmente por causa da época do ano. Início de janeiro, viagens em família. Pais preocupados, mães ansiosas, crianças elétricas.
Ouvi as palavras. Me chamavam para embarcar. Não foi algo direto e pessoal, é claro. Foi apenas um aviso geral. Eu não teria o prazer de ficar na janela. Corredor.
A imagem de todos os meus possíveis companheiros de voo me aterrorizava.
Não fume, não pode fumar, é proibido fumar. Tantas placas e sinais me deixaram com vontade. Apalpei o maço no bolso do casaco.
Fui a primeira da fileira a me acomodar. Alguns minutos depois, tive que me levantar para que as outras duas pessoas ocupassem seus lugares.
Seus rostos eram turvos.
Fechei os olhos.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Amora
Pedro gostava de ler comendo, o que muito me incomodava. Principalmente quando ele resolvia fazê-lo na cama. Eu ficava preocupada, agoniada. Ele era desastrado, e eu sempre achava que ele iria estragar, sujar, manchar, molhar, rasgar meus livros.
Não poderia estar mais errada. Ele nunca o fez.
Pedro me decepcionou de várias formas, mas sempre teve respeito pelos meus livros e lençóis.
Constantemente errava o número do apartamento e me ligava envergonhado, muitas vezes esquecia que horas eu saía do trabalho, ou que eu odiava amarelo.
Mas Pedro nunca errou a quantidade de açúcar no café, ou a música que tocou.
Um certo dia, preencheu o espaço vazio da minha estante e disse que, se pudesse, teria cheiro de livro velho.
Só por mim.
(escrito em 15 de novembro de 2011)
Não poderia estar mais errada. Ele nunca o fez.
Pedro me decepcionou de várias formas, mas sempre teve respeito pelos meus livros e lençóis.
Constantemente errava o número do apartamento e me ligava envergonhado, muitas vezes esquecia que horas eu saía do trabalho, ou que eu odiava amarelo.
Mas Pedro nunca errou a quantidade de açúcar no café, ou a música que tocou.
Um certo dia, preencheu o espaço vazio da minha estante e disse que, se pudesse, teria cheiro de livro velho.
Só por mim.
(escrito em 15 de novembro de 2011)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Silver turns to Gray
Morava em uma daquelas casas "estilo americana". Não sabia, entretanto, explicar como era. E também não sei. Mas sabiamos que era algo bom, afinal, tinha acesso ao telhado pela janela de seu quarto. Algo típico, imaginava(mos).
Era uma noite quente, úmida, com muitas estrelas no céu, e poucos aviões. Com o aparelho de som desligado, era possível ouvir a televisão que ficava no quarto dos pais. Noticiário. Algo sobre um incêndio em uma fábrica no sudeste do país. Longe demais, fora do alcance, fora de sua realidade, era difícil se importar.
Imaginou o gato que não tinha na beira da janela. Pegou o binóculo e resolveu dar uma olhada lá fora, só pra não perder o hábito. Passou com dificuldade pela janela e, com cuidado, sentou no telhado,com o binóculo pendurado no pescoço magro...
Não havia muito o que se ver. Não gostava de estrelas. Era uma pessoa(!) diurna. Pássaros, nuvens, essas coisas. Um pouco além estava o lago. E depois, tanta coisa que talvez nunca visse. De repente,"Oh, my Lolita, I have only words to play with!"disse em voz alta, com um sotaque britânico ridículo. Se sentia tão Lolita, com sua beleza estonteante, e seu ar doce, e seus cinematográficos óculos em forma de coração. Isso não significava nada. Estar naquele telhado, muito menos. Não se sentia minúscula em um Universo que se dizia infinito, um Universo que ela nunca viu! Nunca tocou! Não sabia se era real, se era só sonho, se era só arte. Se sentia grande, espaçosa. Suas unhas roídas e seus vestidos floridos ocupavam todo o espaço que deveria ser de árvores, dos ventos, dos animais. Que foram conquistados, que foram corrompidos, que agora deitavam e rolavam por um pedaço de biscoito de chocolate...
Não, não tinha vozes em sua cabeça lhe dizendo o que fazer. Ou a dor de um amor perdido. Ou uma consciência pesada, arrependida, chorosa. Nada disso. Tinha uma lista de obrigações, de desejos, de países bonitos e suas capitais interessantíssimas.
Naquele telhado, nada aconteceu. Grandes revelações, ideias brilhantes. Não nascia um filme, ou um poema. Saiu de lá tão cheia de nada quanto entrou.
Mas sempre com a certeza de que monumentos são construídos apenas em espaços vazios.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Twilight
Os dias eram iguais e após alguns meses, a junção de tantos dias iguais, formaram algo diferente. A junção de tantos dias iguais causava mudanças.
Queria café. Já eram 19h, mas estava claro demais, quente demais. Não parecia noite porque não era. Era um meio termo esquisito, e sentiu que tomar café naquele momento pareceria estranho. Ele dizia coisas engraçadas, das quais ela não se lembra mais, só lembra que a faziam rir. Talvez não o que era dito em si, mas a situação. A vida como estava. Era inesperado.
Levantou da cama e se vestiu. Ela ficou parada olhando. Ofereceu café. Ela achou divertido. Explicou a situação da noite-não-tão-noite-pra-café e ele fez cara de quem achou bobagem.
Sentou ao lado dela, abaixou a cabeça, lhe afagou os cabelos. Disse que ia fazer café, e que já voltava. Que ela poderia fumar, se quisesse. Ou abrir a janela.
Se enrolou em um cobertor e fez o que lhe foi sugerido. As árvores impediam uma boa visualização do que acontecia do lado de fora, e os pássaros já não cantavam. O vento pós-chuva trouxe o cheiro dele que, obviamente, estava impregnado em cada parte do quarto - e dela. Achou bom. Sorriu.
Fumou um, dois cigarros. Mexeu nos livros, leu dedicatórias de pessoas que não conhecia, mas que tinham letras bonitas. Cantarolou, observou crianças que passavam lá embaixo, se apressando para o jantar. Voltou, entregou-lhe uma xícara verde de café e o Sol já não estava ali.
Propôs um brinde... com café. Dessa vez, ela que sorriu com cara de quem acha bobagem.
Tentaram falar, não conseguiram.
Poucas palavras, muitos olhares. A maioria das vezes não conseguiam entender.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Days, daze
Com uma xícara de café na mão - minha xícara preferida - ela observava, da varanda, a rua."Preciso ir, mas tá ventando muito". Não pedi pra sair. Não estou com pressa. Pode ficar por aqui, eu vou ficar também. "Vai chover. Se sair agora, sei que vou pegar chuva" Ninguém quer isso. Já disse que pode ficar. Quero que fique. Prefiro. "Mas se não for agora, não sei que horas a chuva vai passar, e não sei que horas vou poder ir embora". Não vá. Fique o quanto precisar. O quanto quiser. Se os céus me ajudarem, choverá pra sempre.
Entrou, fechou a porta e ficou encostada na mesma, olhando pra mim. Sentiu frio. Eu sabia disso pois o nariz estava vermelho, e segurava com afinco a tal xícara, que eu presumia estar quente. "Quer um casaco?" "Não, mas aceito mais um pouco de café". Levantei e fui em sua direção. Não se moveu, continuou segurando a xícara, exatamente como estava. Acho que queria que eu chegasse perto, bem perto. Cheguei. Estendeu a mão e sussurrou um tímido "obrigada". Pude sentir ela sorrir ao virar as costas. Desejei que ela pudesse sentir o meu sorriso também.
Já chovia quando voltei, e ela estava sentada no sofá, folheando meu jornal. Entreguei a xícara e observei suas pernas, tão belamente cruzadas. Senti que seus olhos estavam em mim. "Por que não diz nada?" Mas estou dizendo. Olha o tanto de coisa que estou te falando. "É muito difícil te dizer alguma coisa". Fez uma careta, mas depois sorriu. Acho que se sentiu ofendida, mas depois percebeu que era, de certa forma, um elogio. Sentei ao seu lado, apreensivo. Não era desconforto, era só... gostava dela lá, com seu cabelo castanho, suas unhas vermelhas, suas sapatilhas. Gostava do cheiro, da luminosidade. Mulheres em geral eram muito difíceis, e ela também era, mas era de um jeito mais especial. Era melhor. O sorriso sem jeito, a voz baixinha, a insistência em me olhar, jurando que eu nem percebia...
Colocou a cabeça no meu ombro. Ficamos assim até a chuva passar...
Demorou.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Muito é tão pouco
Te sentava na cadeira, te experimentava. Sentia teu cheiro e tentava descobrir do que era. Amêndoas, nozes, tempero, cheiro verde. Te sentava e te beijava, te sentia o gosto. Comparava com sorvete, com cerveja, com o bolo da doceria da esquina. Te sentava na cadeira, te cheirava, machucava seu pescoço. Sentia o cheiro do sangue, do intenso, do incenso. Do gato da vizinha, do meu shampoo, da sua jaqueta de couro. Te provava e sentia o gosto do café de mais cedo, do macarrão que viria e dos comentários sobre o filme. Sentia o cheiro do vento, via as cores do sol poente e te via no espelho.
Tão lindo.
Mas era tão curto. E durava noites inteiras, chuvas inteiras, dias nublados. Finais de semana, inícios, meios. Até onde a gente conseguia contar, até meu livro acabar, até o filme começar. Mas era curto. Era sempre pouco. Sempre vai ser efêmero.
E é mais que o suficiente.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Segunda Feira
Final de uma tarde esquisita. Ventava forte, o sol brilhava fraquinho, como se não quisesse estar lá, por cansaço mesmo. Horário de verão, ainda eram 18h. Ouvia folk alto, e andava enquanto dançava ou dançava enquanto andava. Não sabia bem a diferença. Rodopiava de um lado para o outro, com os cabelos soltos e sujos. A leveza do ser era aquilo, ela achava. Pés descalços, coração no lugar, feriado no dia. Cantavam liberdade, amor, mar, e parecia fácil, certo, real. Tocaram a campainha, ela parou subitamente. Não esperava ninguém, não haviam ligado, ninguém tinha dito nada. Se recompôs, e olhou pelo olho mágico.
De tão mágico, o viu parado, encarando os sapatos. De tão mágico, o viu mordendo o lábio, olhando pro lado. De tão mágico o viu e abriu a porta. De tão mágico, disse que tinha trago sorvete e aquele filme do Godard, foi entrando, agarrando e elogiando.
De tão mágico, se fez real, se fez único, se fez próprio.
De tão mágico, se fez eterno.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Com afeto
Pode esquecer tudo por aqui. Seu secador preto, seu sapato de salto alto, sue vestido florido. Pode se esquecer por aqui. Na xícara de café, no sofá, na varanda. Pode aparecer sem avisar. Durante a manhã, a tarde, a madrugada. Pode trazer uma samambaia pra cuidar, um gatinho branco, um aquário. Pode trazer seus livros, o notebook, as revistas de moda. Os cremes de pele, de cabelo. Os discos de cantoras com vozes doces, e até os do Bob Dylan. Traga seus filmes, suas histórias, seus sorrisos. Seus amigos, sua irmã, seus pais.
Esqueça-me. Cante pra mim. Só não se esqueça de nós.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Majesty
Me pedia café bem quente e deixava esfriar. Fazia isso o tempo todo. "Mais foi culpa tua que veio me beijar". Nem tocava nela. Do jeito que era, era capaz de dizer por aí que a estuprei. Cantava o tempo todo, e sempre com falsetes. "Soa mais profissional, amor". Aí já viu... Quando me chamava de amor, eu sabia o que iria acontecer. Amaria todas as partes do meu corpo, em todos os cômodos do apartamento velho e depois me faria fazer (mais) café. Voltaríamos ao início.
Às vezes chorava, às vezes fugia. Mas sempre acabava onde todas as mulheres bonitas acabam: no fundo de uma gaveta, descrita por palavras que nunca iriam fazer jus.
Ainda anda por aqui, ainda me arranha com a s unhas vermelhas, ainda me beija com os lábios carnudos, ainda me chama de amor.
Ainda exige café quente, ainda me deixa esfriar.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Antes que eu me esqueça
Depois de fechar a porta, ela sentou no sofá. Serena como só ela. Analisou o lugar, começou a reparar em algumas coisas que nunca tinha visto antes. Algumas preocupantes rachaduras no teto, alguns quadros tortos, algumas manchas no tapete. Coisas que, lembrou ela, ele vivia apontando, mas ela nunca via. "Esse lugar é um lixo", ele dizia. Mas ela nunca via. Alguns sentimentos cegam a gente de uma forma, outras cegam de outra. Esses últimos meses haviam cegado-a de todas as formas possíveis, e agora sem toda aquela luz, ela conseguia ver com mais clareza.
Sentia que estava flutuando. Tão leve. Tão nova. Com uma tristeza tão, tão diferente do habitual. Talvez não fosse tristeza. Talvez não seja. Queria chorar, mas não queria dizer nada. Não tinha mais certeza se queria que tivesse ficado, com toda aquela luz e com o jeito de quem não liga pra nada.
Viu que a vasilha do cachorro estava suja, que a janela estava fechada e que o lugar estava abafado. Que sentia sede, sono, fome. Que as coisas tinham mudado em 5 minutos o que não haviam mudado em 5 meses, 5 anos.
O leite azedou, a banda tocou e a vida não parou. Nunca vai parar. Não tinha o que organizar, não havia nada a lamentar.
Escreveu sobre toda a plenitude que tinha acabado de conhecer e foi dormir, sem medo de que tudo mudasse pela manhã.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Carta
É difícil de acreditar que encarar a janela vá fazer a chuva parar, assim como é improvável que a chuva dure mais de 1 hora, principalmente porque não é final de semana. Quem aqui mora sabe que só chove de verdade nas noites de final de semana.
Disse que queria comer sushi. Você me olhou com cara de nojo. "CARNE CRUA". Italiana então, que seja. A comida nunca fez muita diferença. Sempre estivemos mais interessados nos filmes que iam passar na TV. Nunca passa nada, só filmes bobocas de garotas que acreditam em amor eterno e filmes bobocas de caras que acham que explodir coisas é a solução mais viável.
De vez em quando você até me abraça. Diz que meu cabelo está com cheiro de morango, o que você julga ser interessante, porque combina com a cor.
Parecemos mais amigos do que outra coisa qualquer. Porque é o que de fato somos. Mas será? Você teve coragem de me beijar quando eu estava repleta de ovo e farinha de churrasco e tinta e felicidade. Aquele dia foi especialmente bonito pra nós. Você parecia sinceramente orgulhoso de mim, feliz por mim, mas não surpreso. Lembro que você sempre disse que eu conseguiria, e, quando consegui, que não estava acontecendo nada além do que era previsto pra minha vida. Tomamos banho juntos no mesmo dia, e pela primeira vez foi só banho. Você decidiu abrir mão da frescura com sushi e disse que me amava.
Agora um ano se passou, nossa música ainda é nossa música, nossos lugares ainda estão repletos de memórias que são construídas a cada dia e nosso amor ainda é nosso.
O verão continua chuvoso, o inverno continua seco, nosso gato continua morto e eu ainda vivo na minha casa e você na sua.
Você ainda odeia sushi, continua falando coisas injustas sobre Kubrick e continua agindo como se não fosse com você quando tenho minhas crises de ciúme.
O amor continua não sendo eterno, o amor continua não sendo a melhor coisa que já me aconteceu, mas você sempre será.
Obrigada.
domingo, 22 de maio de 2011
"Resíduos de Paixões que o tempo levou"
Fazia horas. Ela se concentrava com uma força anormal para não deixar as lágrimas caírem. Sentada na varanda, seguia os carros barulhentos e incômodos que passavam cada vez mais, cada vez com mais pressa. Seguia, seguia seguia. Segurava. Seguia. O vizinho batia com a vassoura na parede ferozmente, provavelmente irritado por causa do som que estava alto. Isso a ajudava a se concentrar em não deixar as lágrimas caírem. Sentava na cadeira vermelho-sangue que ficava na varanda, pegava o pequeno binóculo na mesinha ao lado, tampava os lindos olhos cinzas com as lentes e ficava observando o sétimo apartamento de esquerda para direita. Tal apartamento ficava do outro lado da rua, tal apartamento ficava no quarto andar do prédio amarelo. Com as luzes apagadas, o apartamento estava iluminado apenas pela fraca luz do Sol de final de tarde. Era possível ver o cachorro dele, que ela dera o nome de Spock, deitado no sofá marrom da sala. Então ela dirigiu a visão para a janela do quarto que estava aberta, mas a cortina fechada impedia que ela visse o que estava acontecendo.
Ele tocava violão enquanto a garota loira dava uma olhada em seus desenhos. Nunca dizia nada, só ia passando, passando, passando... e ele lá, tocando Chico Buarque. Quer café? Ela disse que só tomava chá, então ele se sentiu obrigado a se desculpar, disse que não tinha chá, já que não tomava. Ela sorriu e ele foi pra cozinha. No meio do caminho, parou pra acariciar o cachorro e tirá-lo do sofá. Estava todo babado e seria terrível pra limpar depois.
Ela saltou ao perceber. Ele estava só de cueca samba canção, com um aspecto cansado e cabelos bagunçados. Tem visita? Que bom. Cansou de ouvir o vizinho bater com a vassoura na parede e foi abaixar o som. Aproveitou e mudou para Chico Buarque, e sentiu que deveria pintar algo.
O cansaço o impedia de fazer as coisas direito, então derrubou pó de café no chão, açúcar na pia... um desastre. Se irritou e sentou em uma das cadeiras da mesinha pra dois, e ouviu os passos da garota loira. Agora vestida, ela dizia algo que ele não compreendeu direito por causa do sotaque, mas percebeu que ela estava indo embora. Levou-a até a porta e a abraçou. Esperou que isso fosse o suficiente, não queria falar nada. Foi até a varanda, acendeu um daqueles cigarros de cereja que a garota da semana passada tinha esquecido e ficou encarando o prédio cinza... Percebeu que era primavera, enquanto pensava que Cecília Meireles estava certa.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
After the Curtain
Sentou na beira da cama. Tinha algumas opções. Poderia olhar pra cidade amanhecendo, para as pessoas sem alma e sem vontade indo trabalhar, para os aviões - malditos aviões - roubando o céu dos pássaros, o céu dela, se apoderando de coisas que os humanos, por natureza, não deveriam... Ocupar. Poderia observar o movimento do hospital que ficava logo ali, na rua principal. Vez ou outra ela conseguia pegar alguém sendo levado às pressas por ferimentos graves, como total falta de esperança, o que geralmente explicava as faixas nos pulsos, ou o andar cabisbaixo de quem pensa "Porra, nem pra morrer eu sirvo". Estava desenvolvendo melhor a ideia quando percebeu algo se movendo atrás dela. Seria a segunda opção. Não tinha muito o que ver, pra ser sincera, já que ele tinha a odiável mania de cobrir-se por inteiro com o edredom, deixando então a mostra apenas os cabelos pretos ondulados. Imaginou que ele estivesse de boca aberta, babando em tudo que estivesse próximo dos lábios rachados, e com os braços abertos, em uma posição que, para quem observava, parecia extremamente desconfortável mas que, para ele, imaginava ela - e todas as outras que já o viram de tal forma - era a única coisa a ser feita com os braços que, quando não estavam sendo usados para tocar, desenhar, escrever ou acariciá-la, apenas atrapalhavam.
Escolheu a segunda visão e tratou-se de se enfiar nas cobertas. Que visão magnífica. "Ele deveria ser santificado", pensou ela. Era bonito demais para que alguém sequer considerasse outra opção. O nariz "de leãozinho" constantemente vermelho, o cabelo que caia tão bem com todo o resto e ah... faltava talento de sua parte para descrevê-lo. Mas ela sabia que, quando chegasse o dia, ah, quando chegasse o fatídico dia em que ele levantaria de lá pra nunca mais voltar... sua beleza permaneceria em tudo que ele já tocou. Permaneceria nela e finalmente ela seria boa o suficiente.
Beijou-lhe os olhos que dormiam e foi fazer café.
domingo, 31 de outubro de 2010
De camomila
Queria poder escrever. Escrever talvez pra mim, ou até mesmo pra você. Um bilhetinho azul com meus garranchos, um recadinho no fundo da xícara de chá. Queria te falar o quão bom é não estar agoniada com o nosso destino, como já estive antes, mas o quão ruim é não estar. Não estar aí, ou não estar aqui. Eu quero estar. E eu quero escrever. Escrever pra você. Pra quando você passar pelo banco da praça e ver aquele poema que rima nada-com-nada saber que eu escrevi, e que escrevi pra mim, mas deixei lá pra você.
Quero não empacar. Quero conseguir pensar e quero que meus pensamentos fluam como meus sentimentos o fazem. Quero saber me expressar, quero me expressar só pra te falar que quero que você leia, que quero que você veja, que quero que você voe e que quero que você diga que eu sou mais do que bem vinda pra voar contigo, afinal, é fácil, é só "cair e errar o chão".
Quero sair de lá, te encontrar pra um café, talvez para um jantar, se você puder ficar. Te faço chá e espero você me chamar pra dançar.
Mas tá chovendo lá fora, hoje é dia das bruxas e eu te digo que não sei dançar. Mas eu sei outras coisas, e estou disposta a te ensinar.
Quero poder escrever pra dizer que estou tentando me controlar, tentando não ser idiota, tentanto tudo não despedaçar. Mas também quero te dizer que meus sonhos sabem onde isso vai dar, mas isso não se sonha, não se conta, não se faz.
Agora é sentar e esperar, novamente, com uma xícara de chá.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Sweet Jardim
Era um lugar meio complicado de ser dizer como era. Ou onde ficava. Ou se existia.
Era uma casinha velha, do tipo casinha-velha-dos-anos-50-no-interior-dos-Estados-Unidos. Tinha um lago grande que ela não sabia onde dava porque tinha medo de água. Também tinha muitas plantas iguais, que ela não sabia como chamavam, mas que eram finas e balançavam com o vento forte que sempre fazia. A casinha era feita com madeira gasta, que ela acreditava ter sido pintada de verde. Na verdade, parecia azul, mas ela enxergava verde, pois assim queria, então assim era. Tinha janelas brancas, também bem velhas, gastas e sujas, com praticamente todos os vidros quebrados e um balanço de dois lugares na varanda. Um balanço branco de dois lugares intacto na varanda.
Ela se lembra que chegava sempre muita cansada do ballet, fechava os olhos e, quando abria, se encontrava lá. Então, com suas pernas longas e ossudas, corria em direção ao balanço branco de dois lugares. Deitava nele, amassando seu tutu e desfazendo seu coque. Os cabelos laranja, quase castanhos - ainda hoje há quem diga que ela nunca foi ruiva, que sempre foi "castanha", que "teve a infelicidade que puxar a parte castanha da família do pai"- assim, meio que de uma cor feia, mas com ondas que aludiam imediatamente o movimento do mar, ficavam bonitos vistos de longe.
Era uma imagem bonita de se ver, aquela menina com pernas longas demais e finas demais para seu corpo, sonhos grandes demais para essa vida, deitada naquele balanço branco de dois lugares, sentada com uma perna esticada e a outra dobrada, cantarolando algo como "I see the moon and the moon sees me...", seguindo o vento com a cabeça e com o coração, desejando com todas suas forças se desintegrar para seguir, eternamente, seu movimento.
para ler ouvindo: Tiê - Sweet Jardim
terça-feira, 15 de junho de 2010
Sweet.
"Minha doçura se esvai. Um dia eu soube lidar com isso e havia alguma doçura. Não sei mais nem amar, que era o que eu fazia de melhor. Não sei mais nem me entregar. Não sei mais nada de nada. Eu vou quebrar. Eu acho que eu já quebrei. Isso costumava ser bom. Eu me partia e deixava de ser uma. Agora eu me parto e simplesmente deixo de ser..."
domingo, 23 de maio de 2010
In the sky.
- Sometimes, when I look at the sky, I see the stars moving. I know, they move all the time, and they shine... but people never see it, and I do! I see the stars shining and, when this happens, everything beautiful in the Universe and inside ourselves moves and shines together, because, we like it or not, everything, every little thing, in heaven or earth, are just the same thing, you know?! They aren't the same thing, but they are. One day, maybe, we'll understand.
Disse Lucy e seus olhos chorosos.
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