quinta-feira, 26 de julho de 2012

Não é límpido ou transparente

Não era uma viagem muito longa. Uma semana. Duas, no máximo. Mas tive a constante impressão de estar levando pouca coisa. Pouca roupa, poucos livros.
Eu não estava acostumada com aeroportos. Era acostumada com carros, viagens de três dias. Canaviais e aquele cheiro terrível.
Não me sentia confortável em um avião. Estão no ar, não era pra mim. Não sou pássaro, não sou nuvem.
Esperava sentada. Um rapaz olhava pra mim. Dezessete, talvez. Tinha em mãos uma revista. História em quadrinhos, acho. Com olhos animados e pernas inquietas, ouvia algo que provavelmente não me apeteceria. Tinha um headphone. Enorme, tão grande quanto sua cabeça morena. A música deveria estar alta, pois a senhora ao seu lado parecia incomodada.
Algumas crianças corriam pela área de espera. Provavelmente por causa da época do ano. Início de janeiro, viagens em família. Pais preocupados, mães ansiosas, crianças elétricas.
Ouvi as palavras. Me chamavam para embarcar. Não foi algo direto e pessoal, é claro. Foi apenas um aviso geral. Eu não teria o prazer de ficar na janela. Corredor.
A imagem de todos os meus possíveis companheiros de voo me aterrorizava.
Não fume, não pode fumar, é proibido fumar. Tantas placas e sinais me deixaram com vontade. Apalpei o maço no bolso do casaco.
Fui a primeira da fileira a me acomodar. Alguns minutos depois, tive que me levantar para que as outras duas pessoas ocupassem seus lugares.
Seus rostos eram turvos.
Fechei os olhos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Amora

Pedro gostava de ler comendo, o que muito me incomodava. Principalmente quando ele resolvia fazê-lo na cama. Eu ficava preocupada, agoniada. Ele era desastrado, e eu sempre achava que ele iria estragar, sujar, manchar, molhar, rasgar meus livros.
Não poderia estar mais errada. Ele nunca o fez.
Pedro me decepcionou de várias formas, mas sempre teve respeito pelos meus livros e lençóis.
Constantemente errava o número do apartamento e me ligava envergonhado, muitas vezes esquecia que horas eu saía do trabalho, ou que eu odiava amarelo.
Mas Pedro nunca errou a quantidade de açúcar no café, ou a música que tocou.
Um certo dia, preencheu o espaço vazio da minha estante e disse que, se pudesse, teria cheiro de livro velho.
Só por mim.

(escrito em 15 de novembro de 2011)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Silver turns to Gray

Morava em uma daquelas casas "estilo americana". Não sabia, entretanto, explicar como era. E também não sei. Mas sabiamos que era algo bom, afinal, tinha acesso ao telhado pela janela de seu quarto. Algo típico, imaginava(mos).
Era uma noite quente, úmida, com muitas estrelas no céu, e poucos aviões. Com o aparelho de som desligado, era possível ouvir a televisão que ficava no quarto dos pais. Noticiário. Algo sobre um incêndio em uma fábrica no sudeste do país. Longe demais, fora do alcance, fora de sua realidade, era difícil se importar.
Imaginou o gato que não tinha na beira da janela. Pegou o binóculo e resolveu dar uma olhada lá fora, só pra não perder o hábito. Passou com dificuldade pela janela e, com cuidado, sentou no telhado,com o binóculo pendurado no pescoço magro...
Não havia muito o que se ver. Não gostava de estrelas. Era uma pessoa(!) diurna. Pássaros, nuvens, essas coisas. Um pouco além estava o lago. E depois, tanta coisa que talvez nunca visse. De repente,"Oh, my Lolita, I have only words to play with!"disse em voz alta, com um sotaque britânico ridículo. Se sentia tão Lolita, com sua beleza estonteante, e seu ar doce, e seus cinematográficos óculos em forma de coração. Isso não significava nada. Estar naquele telhado, muito menos. Não se sentia minúscula em um Universo que se dizia infinito, um Universo que ela nunca viu! Nunca tocou! Não sabia se era real, se era só sonho, se era só arte. Se sentia grande, espaçosa. Suas unhas roídas e seus vestidos floridos ocupavam todo o espaço que deveria ser de árvores, dos ventos, dos animais. Que foram conquistados, que foram corrompidos, que agora deitavam e rolavam por um pedaço de biscoito de chocolate...
Não, não tinha vozes em sua cabeça lhe dizendo o que fazer. Ou a dor de um amor perdido. Ou uma consciência pesada, arrependida, chorosa. Nada disso. Tinha uma lista de obrigações, de desejos, de países bonitos e suas capitais interessantíssimas.
Naquele telhado, nada aconteceu. Grandes revelações, ideias brilhantes. Não nascia um filme, ou um poema. Saiu de lá tão cheia de nada quanto entrou.
Mas sempre com a certeza de que monumentos são construídos apenas em espaços vazios.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Twilight

Os dias eram iguais e após alguns meses, a junção de tantos dias iguais, formaram algo diferente. A junção de tantos dias iguais causava mudanças.

Queria café. Já eram 19h, mas estava claro demais, quente demais. Não parecia noite porque não era. Era um meio termo esquisito, e sentiu que tomar café naquele momento pareceria estranho. Ele dizia coisas engraçadas, das quais ela não se lembra mais, só lembra que a faziam rir. Talvez não o que era dito em si, mas a situação. A vida como estava. Era inesperado.
Levantou da cama e se vestiu. Ela ficou parada olhando. Ofereceu café. Ela achou divertido. Explicou a situação da noite-não-tão-noite-pra-café e ele fez cara de quem achou bobagem.
Sentou ao lado dela, abaixou a cabeça, lhe afagou os cabelos. Disse que ia fazer café, e que já voltava. Que ela poderia fumar, se quisesse. Ou abrir a janela.
Se enrolou em um cobertor e fez o que lhe foi sugerido. As árvores impediam uma boa visualização do que acontecia do lado de fora, e os pássaros já não cantavam. O vento pós-chuva trouxe o cheiro dele que, obviamente, estava impregnado em cada parte do quarto - e dela. Achou bom. Sorriu.
Fumou um, dois cigarros. Mexeu nos livros, leu dedicatórias de pessoas que não conhecia, mas que tinham letras bonitas. Cantarolou, observou crianças que passavam lá embaixo, se apressando para o jantar. Voltou, entregou-lhe uma xícara verde de café e o Sol já não estava ali.
Propôs um brinde... com café. Dessa vez, ela que sorriu com cara de quem acha bobagem.
Tentaram falar, não conseguiram.
Poucas palavras, muitos olhares. A maioria das vezes não conseguiam entender.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Days, daze

Com uma xícara de café na mão - minha xícara preferida - ela observava, da varanda, a rua."Preciso ir, mas tá ventando muito". Não pedi pra sair. Não estou com pressa. Pode ficar por aqui, eu vou ficar também. "Vai chover. Se sair agora, sei que vou pegar chuva" Ninguém quer isso. Já disse que pode ficar. Quero que fique. Prefiro. "Mas se não for agora, não sei que horas a chuva vai passar, e não sei que horas vou poder ir embora". Não vá. Fique o quanto precisar. O quanto quiser. Se os céus me ajudarem, choverá pra sempre.
Entrou, fechou a porta e ficou encostada na mesma, olhando pra mim. Sentiu frio. Eu sabia disso pois o nariz estava vermelho, e segurava com afinco a tal xícara, que eu presumia estar quente. "Quer um casaco?" "Não, mas aceito mais um pouco de café". Levantei e fui em sua direção. Não se moveu, continuou segurando a xícara, exatamente como estava. Acho que queria que eu chegasse perto, bem perto. Cheguei. Estendeu a mão e sussurrou um tímido "obrigada". Pude sentir ela sorrir ao virar as costas. Desejei que ela pudesse sentir o meu sorriso também.
Já chovia quando voltei, e ela estava sentada no sofá, folheando meu jornal. Entreguei a xícara e observei suas pernas, tão belamente cruzadas. Senti que seus olhos estavam em mim. "Por que não diz nada?" Mas estou dizendo. Olha o tanto de coisa que estou te falando. "É muito difícil te dizer alguma coisa". Fez uma careta, mas depois sorriu. Acho que se sentiu ofendida, mas depois percebeu que era, de certa forma, um elogio. Sentei ao seu lado, apreensivo. Não era desconforto, era só... gostava dela lá, com seu cabelo castanho, suas unhas vermelhas, suas sapatilhas. Gostava do cheiro, da luminosidade. Mulheres em geral eram muito difíceis, e ela também era, mas era de um jeito mais especial. Era melhor. O sorriso sem jeito, a voz baixinha, a insistência em me olhar, jurando que eu nem percebia...
Colocou a cabeça no meu ombro. Ficamos assim até a chuva passar...
Demorou.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Muito é tão pouco

Te sentava na cadeira, te experimentava. Sentia teu cheiro e tentava descobrir do que era. Amêndoas, nozes, tempero, cheiro verde. Te sentava e te beijava, te sentia o gosto. Comparava com sorvete, com cerveja, com o bolo da doceria da esquina. Te sentava na cadeira, te cheirava, machucava seu pescoço. Sentia o cheiro do sangue, do intenso, do incenso. Do gato da vizinha, do meu shampoo, da sua jaqueta de couro. Te provava e sentia o gosto do café de mais cedo, do macarrão que viria e dos comentários sobre o filme. Sentia o cheiro do vento, via as cores do sol poente e te via no espelho.
Tão lindo.
Mas era tão curto. E durava noites inteiras, chuvas inteiras, dias nublados. Finais de semana, inícios, meios. Até onde a gente conseguia contar, até meu livro acabar, até o filme começar. Mas era curto. Era sempre pouco. Sempre vai ser efêmero.
E é mais que o suficiente.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Segunda Feira

Final de uma tarde esquisita. Ventava forte, o sol brilhava fraquinho, como se não quisesse estar lá, por cansaço mesmo. Horário de verão, ainda eram 18h. Ouvia folk alto, e andava enquanto dançava ou dançava enquanto andava. Não sabia bem a diferença. Rodopiava de um lado para o outro, com os cabelos soltos e sujos. A leveza do ser era aquilo, ela achava. Pés descalços, coração no lugar, feriado no dia. Cantavam liberdade, amor, mar, e parecia fácil, certo, real. Tocaram a campainha, ela parou subitamente. Não esperava ninguém, não haviam ligado, ninguém tinha dito nada. Se recompôs, e olhou pelo olho mágico.
De tão mágico, o viu parado, encarando os sapatos. De tão mágico, o viu mordendo o lábio, olhando pro lado. De tão mágico o viu e abriu a porta. De tão mágico, disse que tinha trago sorvete e aquele filme do Godard, foi entrando, agarrando e elogiando.
De tão mágico, se fez real, se fez único, se fez próprio.
De tão mágico, se fez eterno.