sexta-feira, 13 de maio de 2011

After the Curtain

Sentou na beira da cama. Tinha algumas opções. Poderia olhar pra cidade amanhecendo, para as pessoas sem alma e sem vontade indo trabalhar, para os aviões - malditos aviões - roubando o céu dos pássaros, o céu dela, se apoderando de coisas que os humanos, por natureza, não deveriam... Ocupar. Poderia observar o movimento do hospital que ficava logo ali, na rua principal. Vez ou outra ela conseguia pegar alguém sendo levado às pressas por ferimentos graves, como total falta de esperança, o que geralmente explicava as faixas nos pulsos, ou o andar cabisbaixo de quem pensa "Porra, nem pra morrer eu sirvo". Estava desenvolvendo melhor a ideia quando percebeu algo se movendo atrás dela. Seria a segunda opção. Não tinha muito o que ver, pra ser sincera, já que ele tinha a odiável mania de cobrir-se por inteiro com o edredom, deixando então a mostra apenas os cabelos pretos ondulados. Imaginou que ele estivesse de boca aberta, babando em tudo que estivesse próximo dos lábios rachados, e com os braços abertos, em uma posição que, para quem observava, parecia extremamente desconfortável mas que, para ele, imaginava ela - e todas as outras que já o viram de tal forma - era a única coisa a ser feita com os braços que, quando não estavam sendo usados para tocar, desenhar, escrever ou acariciá-la, apenas atrapalhavam.
Escolheu a segunda visão e tratou-se de se enfiar nas cobertas. Que visão magnífica. "Ele deveria ser santificado", pensou ela. Era bonito demais para que alguém sequer considerasse outra opção. O nariz "de leãozinho" constantemente vermelho, o cabelo que caia tão bem com todo o resto e ah... faltava talento de sua parte para descrevê-lo. Mas ela sabia que, quando chegasse o dia, ah, quando chegasse o fatídico dia em que ele levantaria de lá pra nunca mais voltar... sua beleza permaneceria em tudo que ele já tocou. Permaneceria nela e finalmente ela seria boa o suficiente.
Beijou-lhe os olhos que dormiam e foi fazer café.

domingo, 31 de outubro de 2010

De camomila

Queria poder escrever. Escrever talvez pra mim, ou até mesmo pra você. Um bilhetinho azul com meus garranchos, um recadinho no fundo da xícara de chá. Queria te falar o quão bom é não estar agoniada com o nosso destino, como já estive antes, mas o quão ruim é não estar. Não estar aí, ou não estar aqui. Eu quero estar. E eu quero escrever. Escrever pra você. Pra quando você passar pelo banco da praça e ver aquele poema que rima nada-com-nada saber que eu escrevi, e que escrevi pra mim, mas deixei lá pra você.
Quero não empacar. Quero conseguir pensar e quero que meus pensamentos fluam como meus sentimentos o fazem. Quero saber me expressar, quero me expressar só pra te falar que quero que você leia, que quero que você veja, que quero que você voe e que quero que você diga que eu sou mais do que bem vinda pra voar contigo, afinal, é fácil, é só "cair e errar o chão".
Quero sair de lá, te encontrar pra um café, talvez para um jantar, se você puder ficar. Te faço chá e espero você me chamar pra dançar.
Mas tá chovendo lá fora, hoje é dia das bruxas e eu te digo que não sei dançar. Mas eu sei outras coisas, e estou disposta a te ensinar.
Quero poder escrever pra dizer que estou tentando me controlar, tentando não ser idiota, tentanto tudo não despedaçar. Mas também quero te dizer que meus sonhos sabem onde isso vai dar, mas isso não se sonha, não se conta, não se faz.
Agora é sentar e esperar, novamente, com uma xícara de chá.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sweet Jardim

Era um lugar meio complicado de ser dizer como era. Ou onde ficava. Ou se existia.
Era uma casinha velha, do tipo casinha-velha-dos-anos-50-no-interior-dos-Estados-Unidos. Tinha um lago grande que ela não sabia onde dava porque tinha medo de água. Também tinha muitas plantas iguais, que ela não sabia como chamavam, mas que eram finas e balançavam com o vento forte que sempre fazia. A casinha era feita com madeira gasta, que ela acreditava ter sido pintada de verde. Na verdade, parecia azul, mas ela enxergava verde, pois assim queria, então assim era. Tinha janelas brancas, também bem velhas, gastas e sujas, com praticamente todos os vidros quebrados e um balanço de dois lugares na varanda. Um balanço branco de dois lugares intacto na varanda.
Ela se lembra que chegava sempre muita cansada do ballet, fechava os olhos e, quando abria, se encontrava lá. Então, com suas pernas longas e ossudas, corria em direção ao balanço branco de dois lugares. Deitava nele, amassando seu tutu e desfazendo seu coque. Os cabelos laranja, quase castanhos - ainda hoje há quem diga que ela nunca foi ruiva, que sempre foi "castanha", que "teve a infelicidade que puxar a parte castanha da família do pai"- assim, meio que de uma cor feia, mas com ondas que aludiam imediatamente o movimento do mar, ficavam bonitos vistos de longe.
Era uma imagem bonita de se ver, aquela menina com pernas longas demais e finas demais para seu corpo, sonhos grandes demais para essa vida, deitada naquele balanço branco de dois lugares, sentada com uma perna esticada e a outra dobrada, cantarolando algo como "I see the moon and the moon sees me...", seguindo o vento com a cabeça e com o coração, desejando com todas suas forças se desintegrar para seguir, eternamente, seu movimento.

para ler ouvindo: Tiê - Sweet Jardim

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sweet.

"Minha doçura se esvai. Um dia eu soube lidar com isso e havia alguma doçura. Não sei mais nem amar, que era o que eu fazia de melhor. Não sei mais nem me entregar. Não sei mais nada de nada. Eu vou quebrar. Eu acho que eu já quebrei. Isso costumava ser bom. Eu me partia e deixava de ser uma. Agora eu me parto e simplesmente deixo de ser..."

domingo, 23 de maio de 2010

In the sky.

- Sometimes, when I look at the sky, I see the stars moving. I know, they move all the time, and they shine... but people never see it, and I do! I see the stars shining and, when this happens, everything beautiful in the Universe and inside ourselves moves and shines together, because, we like it or not, everything, every little thing, in heaven or earth, are just the same thing, you know?! They aren't the same thing, but they are. One day, maybe, we'll understand.

Disse Lucy e seus olhos chorosos.

sábado, 22 de maio de 2010

Hector #2

Às vezes eu estava lá, com a mão sobre o coração, em uma tentativa vã de fazê-lo ficar no lugar, enquanto Hector dizia que ficaria careca para testar o meu amor. Eu fazia uma cara de desespero e ele ria, bagunçando os fios ruivos de uma forma adorável. Eu fazia um drama, dizia que não tinha graça e me jogava no chão frio simulando um desmaio. Ele passava por cima de mim ignorando totalmente minha presença e ia ao quarto. Trazia alguma lingerie e mandava eu vestir. Depois, me olhava com aquele olhar cheio de intenções e me desenhava. Eu sorria e abaixava a cabeça, tinha vergonha. Ele ficava lá, me olhando, rindo. Ao acabar, largava o carvão em algum lugar e me abraçava. Me deixava com marcas, mas isso era o de menos. Dizia-me para cantar ao seu ouvido e eu o fazia. Ia embora, ficava alguns dias sem aparecer e voltava com um buquê de tulipas azuis e os olhos mergulhados em café. Me olhava, me queria.
Inexistia.

domingo, 18 de abril de 2010

Transcorrer.

É a coisa do talento. Eu nasci para aplaudir, ele para receber. Ou melhor, merecer tais aplausos. Ele reinava soberano no seu (que, ao mesmo tempo, era tão meu) mundo enquanto eu, observando a fumaça sair de sua boca, fazia reverências com a alma.
Era difícil não se sentir ameaçada com os gritos, comentários que eu ouvia, mesmo não querendo, e admiração de todas as garotas, garotos, pessoas. Era mais fácil de perder, afinal, mas gente via o que eu via. Sim, eles viam o mesmo que eu, só que de forma diferente. Eu, mais do que o músico, via o amor, da vida ou não, era isso que eu via. O amor.
Vezenquando ele fazia um versinho em minha homenagem, mas era nosso segredo. Ele nunca me contava, eu só descobria na hora do show, quando ele me olhava com cara de quem queria dizer "euteamotantomeuamor". Eu ficava com vergonha, ele me deixava com vergonha. Mas não deixa mais.
A fumaça do cigarro se foi, assim como os versos.
E o levaram junto.