sábado, 22 de maio de 2010

Hector #2

Às vezes eu estava lá, com a mão sobre o coração, em uma tentativa vã de fazê-lo ficar no lugar, enquanto Hector dizia que ficaria careca para testar o meu amor. Eu fazia uma cara de desespero e ele ria, bagunçando os fios ruivos de uma forma adorável. Eu fazia um drama, dizia que não tinha graça e me jogava no chão frio simulando um desmaio. Ele passava por cima de mim ignorando totalmente minha presença e ia ao quarto. Trazia alguma lingerie e mandava eu vestir. Depois, me olhava com aquele olhar cheio de intenções e me desenhava. Eu sorria e abaixava a cabeça, tinha vergonha. Ele ficava lá, me olhando, rindo. Ao acabar, largava o carvão em algum lugar e me abraçava. Me deixava com marcas, mas isso era o de menos. Dizia-me para cantar ao seu ouvido e eu o fazia. Ia embora, ficava alguns dias sem aparecer e voltava com um buquê de tulipas azuis e os olhos mergulhados em café. Me olhava, me queria.
Inexistia.

domingo, 18 de abril de 2010

Transcorrer.

É a coisa do talento. Eu nasci para aplaudir, ele para receber. Ou melhor, merecer tais aplausos. Ele reinava soberano no seu (que, ao mesmo tempo, era tão meu) mundo enquanto eu, observando a fumaça sair de sua boca, fazia reverências com a alma.
Era difícil não se sentir ameaçada com os gritos, comentários que eu ouvia, mesmo não querendo, e admiração de todas as garotas, garotos, pessoas. Era mais fácil de perder, afinal, mas gente via o que eu via. Sim, eles viam o mesmo que eu, só que de forma diferente. Eu, mais do que o músico, via o amor, da vida ou não, era isso que eu via. O amor.
Vezenquando ele fazia um versinho em minha homenagem, mas era nosso segredo. Ele nunca me contava, eu só descobria na hora do show, quando ele me olhava com cara de quem queria dizer "euteamotantomeuamor". Eu ficava com vergonha, ele me deixava com vergonha. Mas não deixa mais.
A fumaça do cigarro se foi, assim como os versos.
E o levaram junto.


segunda-feira, 29 de março de 2010

It felt like floating

In the sky.
Or in the sea.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O amor ronda as esquinas da tua alma.

Ela sentava lá, em baixo da maior árvore do Parque. Não por causa da sombra, e sim pra se sentir pequena. Deitava na grama verde, provavelmente esmagando aquelas formiguinhas pretas que iam de um lado para o outro. Ela estava no caminho delas. Coitada, era tão incômoda!
Escrevia no caderno velho e surrado tudo que se passava pela cabeça. Desenha nuvens, flores e rostos. Rostos.
Estava piscando e, do nada, ao abrir os olhos brilhantes e castanhos, apareceu. Com patins nos pés e um sorriso no rosto, apareceu. Ela não queria piscar novamente. E se sumisse? E se se fosse assim como apareceu: de repente?
Ela, que estava aérea e sentada em cima de suas próprias pernas, ficou olhando-o. Olhando os cabelos ruivos naturais que reluziam ao Sol, os cachos embaraçados e as sardas pequenas e castanhas/laranjas. E ela ficou lá, com seus fios negros e seu vestido azul. Olhando.

E aquele momento não acabou. Ela só olhou.
E nunca mais piscou.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Hector.

Eu queria passar meus dedos magros e longos nos cabelos cacheados de Hector. Queria arranhar as costas de Hector com minhas unhas rosa pitanga. Queria lhe dizer coisas ao pé do ouvido. Eu queria, depois de uma noite juntos, vestir a camiseta preferida de Hector. Queria beber no mesmo copo. Fumar o mesmo cigarro. Queria ver jogos de futebol com Hector. Queria abraçar Hector. Queria, em uma tarde de Carnaval, fazer almoço para Hector enquanto o bloco não passava. Queria ver filmes com Hector. Queria, com uma voz rouca e desnorteada, dar Bom Dia à Hector. Queria que as pessoas, ao me ver com Hector, perguntassem o que ele estava fazendo com uma garota como eu. Queria que Hector se perguntasse o que eu estava fazendo com ele.
Queria ver filmes de Allen com Hector. Queria a ajuda de Hector nos meus roteiros, que seriam cada vez mais interessantes, graças à irreverência criativa de Hector.
Queria dar um nome à cada pinta nas costas de Hector. Queria arrancar-lhe os cabelos prematuramente brancos. Queria que Hector me puxasse pela cintura cada vez que me visse sem camiseta, ou completamente nua. Queria dividir minha banheira com Hector.
Queria discutir sobre religião com Hector. Queria brigar com Hector, queria fazer as pazes com Hector. Queria ouvir Beatles e Vanguart com Hector nas tardes quentes e abafadas de verão em um apartamento azul na asa norte.
Queria dizer à Hector que ele me lembrava as chuvas de verão. Queria dizer à Hector que caí no oceano quando o conheci.
Queria querer Hector, e queria que ele me queresse também.
Queria conhecer Hector.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

We can grow strong

Ela se encontrava em um estado constante de felicidade. Todos os dias quando entrava no apartamento o o via ali, dormindo, ou via as roupas dele jogadas, ou os poemas espalhados pelo chão, ou a bagunça que o pequeno e colorido apartamento se tornara desde então, ou até mesmo o cachorrinho preto, dava um sorriso, um sorriso que mal cabia em sua face, eu seu corpo. Diziam que ela tinha emagrecido, que parecia mais bonita, mais jovem. Mais feliz. Quando parava para pensar, sentia medo, pois estava colocando tuda na mão dele. E se ele se cansasse de permanecer com elas fechadas e as abrisse? Se ele decidisses solta-la com toda a felicidade junto... Os os olhos azuis dela se enchiam de incolores gotas de líquido, então ele chegava, deitava ao lado dela, passava as mãos pelo cabelo castanho ondulado, limpava as lágrimas que já haviam descido e dizia para ela não se preocupar. Não se preocupar com nada, pois ele iria arrumar a bagunça. E então, imediatamente, a vontade de cantar na chuva voltava.
No final das contas, acho que era a felicidade que a fazia chorar.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sick Blues

A cama permanecia bagunçada, permanecia com o lado esquerdo vazio, sozinho, meio melancólico. Eu olhava pra ele de relance ao entrar no quarto pra trocar de roupa e meus olhos se enchiam, quase que instantaneamente, de lágrimas. Eu fazia o máximo para não olhar. Cada centímetro, cada átomo que constituía aquela cama, aquele quarto, aquele apartamento, estava cheio de você. Eu passava o máximo possível fora de lá, bem longe do seu cheiro, do seu ego, que ainda infestavam meu apartamento. Os pingos começavam a cair quando olhei pra frente. Parei instantaneamente. Tudo parou. Menos você. Continuou vindo e vindo e vindo até que chegou. Bom te ver. Silêncio. Queria saber como estava. Silêncio. Estava indo te visitar. Silêncio. Senti. Os dedos gelados e longos me puxaram pra perto, os braços envolveram docemente meu corpo e eu poderia jurar que tudo ao redor desmoronou. Pensei, em certo momento, que poderíamos nos unir em um corpo só. Você me soltou. Tudo se tornou sólido novamente. Não precisa ser assim, pequena. Eu só te olhava. Ficava ali, com os dentes cerrados, os olhos encharcados e os pêlos arrepiados. Era como se eu tivesse ficado muda. Pensava em tudo, mas não havia voz, não consegui me movimentar. Movimentar meus lábios, minha língua. Você me deu um beijo na testa. Espero que você melhore, ou que ao menos consiga me abraçar de volta. Um dia venho te visitar. Saiu. Devo ter ficado parada por mais três minutos enquanto as pessoas corriam para se salvar da chuva. Andei lentamente até o prédio verde. Subi alguns degraus. Coloquei a chave na fechadura, girei, sentei no sofá azul e esperei.
Ainda estou esperando.