terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carta

É difícil de acreditar que encarar a janela vá fazer a chuva parar, assim como é improvável que a chuva dure mais de 1 hora, principalmente porque não é final de semana. Quem aqui mora sabe que só chove de verdade nas noites de final de semana.
Disse que queria comer sushi. Você me olhou com cara de nojo. "CARNE CRUA". Italiana então, que seja. A comida nunca fez muita diferença. Sempre estivemos mais interessados nos filmes que iam passar na TV. Nunca passa nada, só filmes bobocas de garotas que acreditam em amor eterno e filmes bobocas de caras que acham que explodir coisas é a solução mais viável.
De vez em quando você até me abraça. Diz que meu cabelo está com cheiro de morango, o que você julga ser interessante, porque combina com a cor.
Parecemos mais amigos do que outra coisa qualquer. Porque é o que de fato somos. Mas será? Você teve coragem de me beijar quando eu estava repleta de ovo e farinha de churrasco e tinta e felicidade. Aquele dia foi especialmente bonito pra nós. Você parecia sinceramente orgulhoso de mim, feliz por mim, mas não surpreso. Lembro que você sempre disse que eu conseguiria, e, quando consegui, que não estava acontecendo nada além do que era previsto pra minha vida. Tomamos banho juntos no mesmo dia, e pela primeira vez foi só banho. Você decidiu abrir mão da frescura com sushi e disse que me amava.
Agora um ano se passou, nossa música ainda é nossa música, nossos lugares ainda estão repletos de memórias que são construídas a cada dia e nosso amor ainda é nosso.
O verão continua chuvoso, o inverno continua seco, nosso gato continua morto e eu ainda vivo na minha casa e você na sua.
Você ainda odeia sushi, continua falando coisas injustas sobre Kubrick e continua agindo como se não fosse com você quando tenho minhas crises de ciúme.
O amor continua não sendo eterno, o amor continua não sendo a melhor coisa que já me aconteceu, mas você sempre será.
Obrigada.

domingo, 22 de maio de 2011

"Resíduos de Paixões que o tempo levou"

Fazia horas. Ela se concentrava com uma força anormal para não deixar as lágrimas caírem. Sentada na varanda, seguia os carros barulhentos e incômodos que passavam cada vez mais, cada vez com mais pressa. Seguia, seguia seguia. Segurava. Seguia. O vizinho batia com a vassoura na parede ferozmente, provavelmente irritado por causa do som que estava alto. Isso a ajudava a se concentrar em não deixar as lágrimas caírem. Sentava na cadeira vermelho-sangue que ficava na varanda, pegava o pequeno binóculo na mesinha ao lado, tampava os lindos olhos cinzas com as lentes e ficava observando o sétimo apartamento de esquerda para direita. Tal apartamento ficava do outro lado da rua, tal apartamento ficava no quarto andar do prédio amarelo. Com as luzes apagadas, o apartamento estava iluminado apenas pela fraca luz do Sol de final de tarde. Era possível ver o cachorro dele, que ela dera o nome de Spock, deitado no sofá marrom da sala. Então ela dirigiu a visão para a janela do quarto que estava aberta, mas a cortina fechada impedia que ela visse o que estava acontecendo.
Ele tocava violão enquanto a garota loira dava uma olhada em seus desenhos. Nunca dizia nada, só ia passando, passando, passando... e ele lá, tocando Chico Buarque. Quer café? Ela disse que só tomava chá, então ele se sentiu obrigado a se desculpar, disse que não tinha chá, já que não tomava. Ela sorriu e ele foi pra cozinha. No meio do caminho, parou pra acariciar o cachorro e tirá-lo do sofá. Estava todo babado e seria terrível pra limpar depois.
Ela saltou ao perceber. Ele estava só de cueca samba canção, com um aspecto cansado e cabelos bagunçados. Tem visita? Que bom. Cansou de ouvir o vizinho bater com a vassoura na parede e foi abaixar o som. Aproveitou e mudou para Chico Buarque, e sentiu que deveria pintar algo.
O cansaço o impedia de fazer as coisas direito, então derrubou pó de café no chão, açúcar na pia... um desastre. Se irritou e sentou em uma das cadeiras da mesinha pra dois, e ouviu os passos da garota loira. Agora vestida, ela dizia algo que ele não compreendeu direito por causa do sotaque, mas percebeu que ela estava indo embora. Levou-a até a porta e a abraçou. Esperou que isso fosse o suficiente, não queria falar nada. Foi até a varanda, acendeu um daqueles cigarros de cereja que a garota da semana passada tinha esquecido e ficou encarando o prédio cinza... Percebeu que era primavera, enquanto pensava que Cecília Meireles estava certa.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

After the Curtain

Sentou na beira da cama. Tinha algumas opções. Poderia olhar pra cidade amanhecendo, para as pessoas sem alma e sem vontade indo trabalhar, para os aviões - malditos aviões - roubando o céu dos pássaros, o céu dela, se apoderando de coisas que os humanos, por natureza, não deveriam... Ocupar. Poderia observar o movimento do hospital que ficava logo ali, na rua principal. Vez ou outra ela conseguia pegar alguém sendo levado às pressas por ferimentos graves, como total falta de esperança, o que geralmente explicava as faixas nos pulsos, ou o andar cabisbaixo de quem pensa "Porra, nem pra morrer eu sirvo". Estava desenvolvendo melhor a ideia quando percebeu algo se movendo atrás dela. Seria a segunda opção. Não tinha muito o que ver, pra ser sincera, já que ele tinha a odiável mania de cobrir-se por inteiro com o edredom, deixando então a mostra apenas os cabelos pretos ondulados. Imaginou que ele estivesse de boca aberta, babando em tudo que estivesse próximo dos lábios rachados, e com os braços abertos, em uma posição que, para quem observava, parecia extremamente desconfortável mas que, para ele, imaginava ela - e todas as outras que já o viram de tal forma - era a única coisa a ser feita com os braços que, quando não estavam sendo usados para tocar, desenhar, escrever ou acariciá-la, apenas atrapalhavam.
Escolheu a segunda visão e tratou-se de se enfiar nas cobertas. Que visão magnífica. "Ele deveria ser santificado", pensou ela. Era bonito demais para que alguém sequer considerasse outra opção. O nariz "de leãozinho" constantemente vermelho, o cabelo que caia tão bem com todo o resto e ah... faltava talento de sua parte para descrevê-lo. Mas ela sabia que, quando chegasse o dia, ah, quando chegasse o fatídico dia em que ele levantaria de lá pra nunca mais voltar... sua beleza permaneceria em tudo que ele já tocou. Permaneceria nela e finalmente ela seria boa o suficiente.
Beijou-lhe os olhos que dormiam e foi fazer café.

domingo, 31 de outubro de 2010

De camomila

Queria poder escrever. Escrever talvez pra mim, ou até mesmo pra você. Um bilhetinho azul com meus garranchos, um recadinho no fundo da xícara de chá. Queria te falar o quão bom é não estar agoniada com o nosso destino, como já estive antes, mas o quão ruim é não estar. Não estar aí, ou não estar aqui. Eu quero estar. E eu quero escrever. Escrever pra você. Pra quando você passar pelo banco da praça e ver aquele poema que rima nada-com-nada saber que eu escrevi, e que escrevi pra mim, mas deixei lá pra você.
Quero não empacar. Quero conseguir pensar e quero que meus pensamentos fluam como meus sentimentos o fazem. Quero saber me expressar, quero me expressar só pra te falar que quero que você leia, que quero que você veja, que quero que você voe e que quero que você diga que eu sou mais do que bem vinda pra voar contigo, afinal, é fácil, é só "cair e errar o chão".
Quero sair de lá, te encontrar pra um café, talvez para um jantar, se você puder ficar. Te faço chá e espero você me chamar pra dançar.
Mas tá chovendo lá fora, hoje é dia das bruxas e eu te digo que não sei dançar. Mas eu sei outras coisas, e estou disposta a te ensinar.
Quero poder escrever pra dizer que estou tentando me controlar, tentando não ser idiota, tentanto tudo não despedaçar. Mas também quero te dizer que meus sonhos sabem onde isso vai dar, mas isso não se sonha, não se conta, não se faz.
Agora é sentar e esperar, novamente, com uma xícara de chá.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sweet Jardim

Era um lugar meio complicado de ser dizer como era. Ou onde ficava. Ou se existia.
Era uma casinha velha, do tipo casinha-velha-dos-anos-50-no-interior-dos-Estados-Unidos. Tinha um lago grande que ela não sabia onde dava porque tinha medo de água. Também tinha muitas plantas iguais, que ela não sabia como chamavam, mas que eram finas e balançavam com o vento forte que sempre fazia. A casinha era feita com madeira gasta, que ela acreditava ter sido pintada de verde. Na verdade, parecia azul, mas ela enxergava verde, pois assim queria, então assim era. Tinha janelas brancas, também bem velhas, gastas e sujas, com praticamente todos os vidros quebrados e um balanço de dois lugares na varanda. Um balanço branco de dois lugares intacto na varanda.
Ela se lembra que chegava sempre muita cansada do ballet, fechava os olhos e, quando abria, se encontrava lá. Então, com suas pernas longas e ossudas, corria em direção ao balanço branco de dois lugares. Deitava nele, amassando seu tutu e desfazendo seu coque. Os cabelos laranja, quase castanhos - ainda hoje há quem diga que ela nunca foi ruiva, que sempre foi "castanha", que "teve a infelicidade que puxar a parte castanha da família do pai"- assim, meio que de uma cor feia, mas com ondas que aludiam imediatamente o movimento do mar, ficavam bonitos vistos de longe.
Era uma imagem bonita de se ver, aquela menina com pernas longas demais e finas demais para seu corpo, sonhos grandes demais para essa vida, deitada naquele balanço branco de dois lugares, sentada com uma perna esticada e a outra dobrada, cantarolando algo como "I see the moon and the moon sees me...", seguindo o vento com a cabeça e com o coração, desejando com todas suas forças se desintegrar para seguir, eternamente, seu movimento.

para ler ouvindo: Tiê - Sweet Jardim

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sweet.

"Minha doçura se esvai. Um dia eu soube lidar com isso e havia alguma doçura. Não sei mais nem amar, que era o que eu fazia de melhor. Não sei mais nem me entregar. Não sei mais nada de nada. Eu vou quebrar. Eu acho que eu já quebrei. Isso costumava ser bom. Eu me partia e deixava de ser uma. Agora eu me parto e simplesmente deixo de ser..."

domingo, 23 de maio de 2010

In the sky.

- Sometimes, when I look at the sky, I see the stars moving. I know, they move all the time, and they shine... but people never see it, and I do! I see the stars shining and, when this happens, everything beautiful in the Universe and inside ourselves moves and shines together, because, we like it or not, everything, every little thing, in heaven or earth, are just the same thing, you know?! They aren't the same thing, but they are. One day, maybe, we'll understand.

Disse Lucy e seus olhos chorosos.